sexta-feira, 27 de julho de 2018

30 segundos para o anonimato

|0 comentários


O edifício Wilton Paes de Almeida pegou fogo e desabou no antigo centro de São Paulo durante a madrugada no dia primeiro de maio, terça-feira. O prédio tinha 24 andares e à 1h30, o fogo iniciou no quinto andar e se espalhou rapidamente pela estrutura, causando o desmoronamento. Entretanto, um rapaz chamou a atenção de todos pelo ato de bravura, que infelizmente não terminou bem.
Um homem com cerca de 30 anos, saiu rapidamente do local; tendo em vista o número de pessoas que ainda estavam lá, resolveu voltar para ajudar. A imagem do homem suspenso no alto do prédio comoveu diversas pessoas causando pânico. Infelizmente o prédio desabou juntamente com o homem.
O incômodo surgiu na forma que a mídia (Jornal Nacional – rede Globo) expôs o caso, repetindo diversas vezes a situação do homem suspenso no alto do prédio, tentando ser salvo pelos bombeiros. Essa cena foi mostrada mais de uma vez durante o jornal. Com o intuito de provocar comoção por parte dos telespectadores, sem respeitar os familiares e até mesmo a vítima. 
Ao analisar o tema identifiquei três eixos importantes: o fato, a condição e a notícia. O primeiro seria a exposição, pois ele causa comoção nas pessoas pelo número de repetições por parte da mídia. Em segundo a condição para a existência do fato, sendo a vítima, dando suporte para o fato. Por último a notícia, como ela foi trabalha pelo veículo ao expor o que aconteceu, intermediando entre o meu fato (exposição) e a condição (ocorrido com a pessoa). Sendo assim, a mídia reutilizou do serviço dela mais de uma vez para prender a atenção dos telespectadores.
É importante ressaltar o fato dessa notícia ser uma tragédia. Hoje em dia muitos dos veículos de comunicação estão optando por matérias de violência ou tragédias por causarem impacto na sociedade e repercussão. O fato de expor um homem em um prédio entre a vida e a morte de alguma forma chama a atenção de quem assiste, mas não é o certo. Preservar a imagem de uma pessoa em situação de risco é importante assim como noticiar o que está acontecendo, mas a repetição não.
Outro ponto foi o fato deles terem na hora da edição circulado os bombeiros e até mesmo a vítima, dando o foco na situação. O discurso tanto por parte dos bombeiros quanto da jornalista acho que não tinha relevância para a situação. Em entrevista, foi falado que se tivessem mais 30 segundos teriam salvado o homem. Acredito que seja difícil mensurar o tempo e até mesmo prever se teriam conseguido ou não. Portanto, usaram mais uma vez o recurso de repetir a cena, com intuito de promover a ação dos profissionais com uma possível solução para algo que não aconteceu.
A partir disso é possível dizer que o Jornal Nacional usa de elementos para prender o telespectador. A repetição da notícia causa comoção nas pessoas, mas se esquecem de proteger a vítima e acabam expondo mais de uma vez. Infelizmente o fato de querer vender o material é mais importante ao invés de pensar como aquilo vai chegar nas pessoas. A reutilização da mesma notícia para causar impacto é constante hoje em dia nos veículos de comunicação, não acho isso ruim, mas tudo vai depender de como você vai utilizá-la e como você quer que ela chegue para a sociedade.

Texto: Luiz Fernando Moura

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A luta dos venezuelanos pela sobrevivência

|0 comentários
Segundo Marcelo Zero, sociólogo e colunista do blog Brasil Debate, em seu artigo “Para entender a Venezuela”, a Venezuela está localizada na maior reserva de petróleo do mundo, sua reserva é 17% de todo o petróleo do mundo. “Este petróleo está a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em comparação, o petróleo do Oriente Médio está entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de óleo do planeta”.
 A venda de petróleo é uma das maiores fontes de renda da Venezuela, então em 2016 quando o preço médio do barril de petróleo passou de $100 dólares para $33, a economia venezuelana teve uma grande queda e a inflação subiu disparadamente. Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela decidiu contornar essa situação fazendo um controle de gastos e câmbio e racionando as importações, isso ocasionou a crise socioeconômica e humanitária, que atualmente está ocorrendo na Venezuela.
Na reportagem “Cinco perguntas para entender a crise na Venezuela”, de Giovanna Tadini, para o portal da revista Época, encontramos dados de uma pesquisa feita por diversas universidades e ONGs sobre as condições de vida na Venezuela, os dados encontrados mostram que em 2016, 81% das famílias e lares já viviam abaixo da linha pobreza, e que 93% dos venezuelanos não conseguem comprar os alimentos que necessitam.
As consequências dessa crise venezuelana começaram a realmente afetar o Brasil em 2017. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) informou no dia 13 de maio de 2018, que desde 2014 foram registrados 145 mil pedidos de refúgios a partir de venezuelanos, e que dois terços desses pedidos foram realizados em 2017.
Hoje o Estado de Roraima já conta com mais de 40.000 refugiados venezuelanos, eles atravessam a fronteira de Santa Elena de Uiarén (Venezuela) com a cidade de Pacaraima (RR/ Brasil), em busca de melhores condições de vida, deixando para trás sua cultura, família e sonhos, já que na Venezuela quase não se tem mais alimento, medicamentos e itens de necessidade básica e sua moeda, o bolívar venezuelano, está totalmente desvalorizado. 
No dia 09/05/2018 o programa Profissão Repórter, apresentado pelo jornalista Caco Barcelos, foi ao ar, no qual o repórter Estevan Muniz apresenta a trajetória de uma família venezuelana que atravessou 5.000 km para chegar à cidade de São Paulo, em busca de uma vida com melhores condições.  Já o repórter convidado Rhonny Zamora, mostra o ponto de vista dos venezuelanos sobre a crise em seu país, através de duas famílias que moram em Caracas, capital da Venezuela, apresentando seu dia a dia através de filas gigantes para se conseguir um pão e os preços exorbitantes dos itens de necessidade básica que os venezuelanos são obrigados a pagar.
Até o momento não foram feitas muitas reportagens televisivas falando sobre a crise na Venezuela e a crise de refugiados venezuelanos em Roraima; foi importante a Globo ter produzido esse tipo de conteúdo, ainda em um veículo como a TV, que é uma mídia de comunicação em massa. O programa provavelmente informou muitos brasileiros que não sabiam o que está acontecendo e trouxe uma nova perspectiva para aqueles que sabiam da situação em Roraima, mas não entendiam o porquê desse fluxo migratório tão intenso estar ocorrendo. 
O Profissão Repórter conseguiu sensibilizar as pessoas com esse programa em específico, ele mostrou a realidade das famílias venezuelanas e como elas estão enfrentando essa crise de maneiras diferentes, e mesmo assim sofrendo enormes consequências. Quando o repórter Estevan Muniz chega em Boa Vista – Roraima, ele mostra a realidade da cidade nesse momento, enfrentando a crise de refugiados e a situação em que os venezuelanos se encontram lá. Uma coisa interessante que a reportagem do Estevan trouxe, é que mesmo tendo pessoas que ajudam e compreendem a situação desses imigrantes, também temos pessoas que são preconceituosas e racistas com os venezuelanos, que não se importam com a situação desumana em que eles estão vivendo. 
É importante as pessoas saberem o que está acontecendo em nosso país e nos países vizinhos, nós aqui no Brasil não podemos ajudar fisicamente os refugiados sírios ou as crianças na África, mas podemos ter essa oportunidade de ajudar os venezuelanos que estão em nosso país, dando oportunidades de emprego, abrigo, roupas e comida.
São reportagens como essa, que ajudam as pessoas a se sensibilizarem e a entender a realidade do que está acontecendo em Roraima e na Venezuela, e estarem dispostas a ajudar as pessoas que estão enfrentando essa crise humanitária.   

Texto: Raiane Teofilo

terça-feira, 17 de julho de 2018

A violência na mídia: o que move esse cenário?

|0 comentários

É grande o número de casos de violência que vemos na mídia todos os dias. Seja uma vítima de bala perdida, uma mulher assassinada pelo ex-companheiro, uma família feita refém durante um assalto. Tornou-se rotina e em partes, hábito, assistirmos aos noticiários cientes que em algum trecho dele, estará presente esse tipo de conteúdo. Em um tempo onde a violência tem se intensificado e se tornado cada vez mais acessível às redações, é inevitável que essas publicações tornem-se evidência e preencham maior espaço nas edições. 
Lembro-me que logo que ingressei na área do jornalismo, ainda como estagiária, meu chefe de redação me disse que “qualquer notícia envolvendo criança e ‘velho’ valia a pena, dava audiência”. Para alguém que ainda não tinha qualquer critério de noticiabilidade estabelecido, fazer daquelas palavras as minhas me pareceu uma boa ideia. Embora essa visão pareça pessoal e específica, é ela que alimenta a grande maioria dos veículos. Uma criança, um idoso, assim como outros tipos singulares de personagens, desencadeia no público empatia e uma sensibilidade ainda mais notória. Foi essa simples frase dita por um profissional, sem nenhuma pretensão, que me fez enxergar que o jornalismo não se resume apenas em noticiar acontecimentos, há muitos outros aspectos com os quais se preocupar.
Diante dessa reflexão, escolhi falar sobre um dos casos de violência mais cruéis e singulares já noticiados, o do menino João Hélio. O garoto de apenas seis anos morreu durante um assalto, após não conseguir desprender-se do cinto de segurança, do carro da família. Mesmo cientes da situação, os suspeitos arrastaram a criança do lado de fora do veículo, por pelo menos sete quilômetros, até que parassem e fugissem a pé. A vítima estava com a mãe, a irmã e uma amiga da família, que conseguiram escapar. Por um equipamento de segurança, João não teve o mesmo destino. O assassinato ocorreu no Rio de Janeiro, em 7 de fevereiro de 2007. 
João era vulnerável, vítima da violência e principalmente, criança. As redações estavam cheias de pautas sobre o caso, qualquer detalhe era um “trunfo”, em meio às informações ainda superficiais, dadas pela Polícia Civil. Me recordo de, aos onze anos de idade, abrir uma edição especial da revista Veja falando sobre o crime. Em um dos relatos, uma das testemunhas do caso contou ao veículo que viu o momento em o crânio do menino chocou-se contra a guia de uma das ruas e o sangue de João foi derramado. Palavras perturbadoras e invasivas para muitos, mas aprovada pela edição, em busca de uma cobertura mais aprofundada e detalhista. Qual seria o limite entre a exposição da verdade e o sensacionalismo? 
Em busca de expressar a dor dos pais do menino, o jornalista Zeca Camargo, então apresentador do programa Fantástico, da Rede Globo, usa o termo “ainda muito abalados”, antes que uma entrevista com os mesmos seja transmitida para milhares de lares brasileiros, quatro dias após o crime. A condutora da matéria é a apresentadora Fátima Bernardes. Logo na primeira cena, ela abraça a mãe de João, que está desolada. As primeiras palavras da genitora? “Muito obrigada por vocês terem vindo.” 
Trêmula, com os olhos visivelmente inchados, segurando e olhando incessantemente uma foto do filho, a mãe responde com dificuldade às perguntas da repórter. As lágrimas da entrevistada não escorrem, porque já lhe faltam. O pai chora lembrando de um desenho feito pela criança, pouco tempo antes de ser assassinada. Quanto maior a demonstração de abatimento, maior é o zoom dado pelo cinegrafista no rosto do casal. 
A superexposição diante da família de João Hélio, assim como tantas outras, mostra que diferente do que foi dito, não é a “criança e o velho” que vendem, mas sim, a dor. Informar não é mais o suficiente dentro das redações. Em busca de público, a sensibilidade do receptor precisa ser aflorada a cada publicação.  É na violência que encontra-se um dos resultados mais significantes quanto à comoção do receptor, mesmo que exteriorizada na tristeza e na revolta. Por mais dolorido que seja dizer isso, a casa da audiência tornou-se o choro de uma mãe, a morte de um filho, o sangue derramado... E é neste mesmo lar que a mídia almeja morar, por mais caro que seja o custo de locação.

Texto: Júlia Lippi

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Endometriose em pauta

|0 comentários

A endometriose é uma doença ginecológica que traz grande desconforto às mulheres que possuem, (cerca de seis milhões de brasileiras para ser mais precisa, segundo os dados de 2017 fornecidos pela Associação Brasileira de Endometriose) . Essa doença vem do endométrio, o tecido que reveste o ovário, que nos casos do desenvolvimento acaba se espalhando para outros órgãos como as trompas, ovários, intestinos e bexiga. Isso ocorre porque quando não há gravidez, o endométrio descama e ao invés de ser totalmente expelido na menstruação, ele faz o processo ao contrário, atingindo os órgãos.
O fato de o endométrio ser mais espesso acaba gerando um desconforto em todos os órgãos que ele conseguir se espalhar, gerando dores antes e após às menstruações. Por essas dores é considerada uma doença “silenciosa”. Essas dores que acometem as mulheres acabam atrapalhando suas rotinas, dificultando as obrigações profissionais e pessoais. Além desses fatores, a endometriose traz grandes dificuldades para gerar uma vida, devido ao seu tratamento e o comprometimento dos órgãos afetados.   Uma doença séria como essa deve ser informada para que todos tenham o conhecimento da sua gravidade, mas as notícias nos veículos raramente abordam temas como esse, a não ser quando envolvem pessoas de grande importância.
Exemplo disso foi o caso da atriz Lena Dunhan, que devido à doença teve que retirar o útero através de um procedimento cirúrgico chamado de histerectomia, aos 31 anos. A notícia sobre esse procedimento que atriz passou foi divulgada em diversos portais jornalísticos, entre eles: Uol, Veja, El Pais e outros. 
O portal El País publicou a reportagem “Endometriose, a doença que fez Lena Dunham tirar o útero aos 31 anos” , relatando as dores que a atriz sentia e a decisão que tomou de retirar os órgãos, uma vez que isso impede a gestação. Em seguida foi apresentada a doença, seus sintomas, tratamentos e a sua gravidade. 
Acredito que o fato de um problema como esse ser divulgado quando envolve alguém importante é um resultado do que as pessoas se interessam, e a mídia sempre atenta, utiliza ao seu favor. As celebridades e suas vidas estão cada vez mais presentes nos veículos jornalísticos e isso ocorre porque há audiência. 
Assuntos sérios, como doenças, a meu ver devem se divulgados independentes de quem o tem, porque é um problema de cunho social, importante, que está aumentando cada dia mais e que muitos não possuem o conhecimento do que se trata. Faço essa reflexão até mesmo por experiência própria, pois tenho endometriose há alguns anos e demorei para descobrir que minhas dores estavam ligadas a esse problema, até então desconhecido.
O simples fato de essa doença estar crescendo, e desse modo estar atingindo muitas mulheres, já deve ser considerado opção de pauta, porque seu conteúdo pode auxiliar e orientar aquelas que sofrem dores excessivas e ainda não possuem o conhecimento sobre a endometriose. Apresentar os tratamentos, relatar história daquelas que superaram, apresentar dicas e informações pertinentes, são abordagens que podem preencher a notícia.
Mas essa não é a primeira vez que esse tipo de cobertura, com relação às celebridades e doenças sérias, ocorre nos veículos noticiosos. No ano passado, a doença fibromialgia – síndrome de dor generalizada pelo corpo -, se tornou pauta através da cantora Lady Gaga, que devido às dores geradas pela doença teve que cancelar seu show no festival de música Rock in Rio e se submeter a tratamento e repouso. 
Os veículos devem estar atentos às essas possibilidades de notícias, incluindo-as em suas editorias de saúde.
Informar e ser um prestador de informação é uns dos principais compromissos do jornalismo, e desenvolver pautas de saúde que abordem doenças sérias como essas e tantas outras que são até mesmo desconhecidas, é uma boa maneira de prezar esse compromisso.

Texto: Miriã de Almeida




quarta-feira, 11 de julho de 2018

Zeca Camargo de boca fechada seria um poeta?

|0 comentários

Para quem não sabe, ou não conhece, Zeca Camargo é um apresentador e jornalista da emissora Rede Globo, onde trabalha há mais de 20 anos, formado também em administração. Zeca Camargo trabalhou praticamente sua vida toda até aqui como apresentador, sendo seis anos de Fantástico, dois de Vídeo Show e atualmente apresenta o programa matutino É de Casa, desde 2013. 
Como podemos ver o currículo de Zeca é de brilhar os olhos, então podemos nos perguntar o porquê do título acima? Sim, podemos. 
Para quem não lembra, o apresentador protagonizou uma grande polêmica e revolta em parte da população brasileira ao comentar a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. 
Amado por milhares de brasileiros, Cristiano Araújo faleceu aos 29 anos, em um acidente de carro em Goiás, na madrugada do dia 24 de junho de 2015, junto de sua namorada Allana Moraes, de 19 anos. No mesmo veículo estavam também o condutor Ronaldo Miranda, e o empresário Victor Leonardo (os dois sofreram apenas ferimentos leves). 
A morte causou uma grande comoção por parte de fãs, amigos, e pessoas do Brasil inteiro. Foi desta comoção que veio a opinião e o infeliz comentário de Zeca Camargo. 
A crônica do apresentador foi feita no domingo do dia 28 de junho (quatro dias após o acidente, que ainda gerava um grande luto), durante o Jornal das Dez, da Globo News onde o apresentador disse as seguintes palavras: “Muita gente estranhou a comoção repentina diante a morte trágica do cantor Cristiano Araújo, mas a surpresa, porém, é o fato dele ser ao mesmo tempo tão famoso e tão desconhecido. Felizmente, o Brasil tem um punhado de artistas que não passam pelo radar da grande mídia, e nem são consenso popular, mas que levam multidões para os seus shows. Na verdade, a importância dada à morte do cantor está relacionada à falta de referências culturais na atualidade. Ao nos mostrarmos abalados com a ausência de Cristiano acreditamos estar de fato comovidos com a ausência de um grande ídolo, e todos sabemos que não é bem assim. O cantor talvez tenha morrido cedo demais para provar que tinha potencial para se tornar uma paixão nacional, como tantos casos recentes. Nossa canção popular é hoje dominada por revelações de uma música só, que se entregam a uma alucinada agenda de shows para gerar um bom dinheiro antes que a faísca desse sucesso singular apague sem deixar uma chama mais duradoura. E nesse cenário qualquer um pode, nem que seja por um dia, ser uma estrela maior. Teria sido esse o caso de Cristiano Araújo? Nossa história musical e mesmo o passado recente prova que temos tudo para adorarmos ídolos de verdade e para chorar de verdade".
Questionar o valor dos sucessos instantâneos, por não apreciar a arte do cantor não foi ético. Concordamos que não é todo mundo que curte o sertanejo, e poderia realmente não conhecer o trabalho de Cristiano Aráujo, o fato é que Zeca Camargo não só desrespeitou o valor de Cristiano, como desrespeitou a dor de familiares, amigos e fãs. 
Bastou poucos minutos para a internet bombardear Zeca Camargo com ofensas, posts negativos, “memes” irônicos e críticas. Além de fãs, cantores e outros artistas que foram amigos de Cristiano também se manifestaram nas redes sociais com textos e fotos mostrando grande ira ao apresentador. Foi o caso das duplas Henrique e Juliano, Thaeme e Thiago, Zezé de Camargo e Luciano, Marcos e Belutti, Jorge e Mateus, Maiara e Maraísa, Leonardo, Eduardo Costa, Gusttavo Lima, além dos apresentadores Rodrigo Faro, Danilo Gentilli, Sônia Abrão entre outros. 
Após à polêmica, o apresentador apareceu no Vídeo Show para pedir desculpas, e mais uma vez se complicou, quando trocou o nome do cantor pelo do jogador de futebol Cristiano Ronaldo, mostrando aparentemente não conhecer mesmo de fato Cristiano Araújo. “Tenho a maior admiração por qualquer artista, sobretudo o ‘Cristiano Ronaldo’ que não está mais com a gente, que começou de uma maneira tão simples, tão honesta, tão bonita e virou esse artista que o Brasil inteiro chorou a morte. Então eu queria, talvez, me desculpar com quem tenha entendido mal esse texto", disse. 
Mais uma vez Zeca teve suas redes sociais atacadas, porém desta vez não ficou quieto e rebateu com palavras duras dizendo: “Não tenho medo das minhas opiniões, até porque, está claro para mim que minha crítica não era ao artista nem ao seu luto, mas à cobertura dele e ao vazio do discurso sobre cultura no Brasil (essa sim, tristemente próxima de um livro de colorir)”, ironizou por fim. 
Zeca Camargo foi processado pela família do cantor, e condenado a indenizar a família de Cristiano Araújo em R$ 60 mil. Nenhum valor apagará as palavras que poderiam ter sido evitadas, muito menos amenizará a dor da perda, e a vontade de tê-lo em nosso meio novamente, mas serviu para Zeca entender que um pensamento divulgado em três minutos, pode acabar com a moral e a imagem de alguém por muito tempo.
Cristiano Araújo apesar do que o comentarista deduziu na época, ainda não foi esquecido, prova disso que mês que vem completará 3 anos da morte do cantor, que todo mês é homenageado por fãs, amigos e artistas, por meio de redes sociais, canais de televisão, shows, matérias e reportagens especiais. Zeca não errou de opinar, fato é que ele sendo jornalista e âncora pelo seu extenso currículo tem o direito de se expressar, mas escolheu o pior momento para uma declaração, não respeitando a perda de alguém que foi muito importante para milhares de brasileiros através de suas músicas e de seu coração que apresentava ser humilde e raro. Além de desmerecer a dor de muitos, pelo fato de não conhecer ou não ser fã do trabalho do cantor. 
Do contrário, de Zeca Camargo que em diversas palavras questionou “Quem foi Cristiano Araújo?” e dos críticos que rebateram perguntando “Quem é Zeca Camargo?”, só temos a dizer que todos podemos ser poetas se respeitarmos uns aos outros, ficando calados quanto ao que pensamos, afim de evitar muita coisa. Ação gera reação. Fica a dica Zeca. 

Texto: Gabriel Fernando Bisco Ferreira 


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Feminicídio: discutir ou consumir?

|0 comentários
O assassinato de Patrícia Koike em Nova Iguaçu (RJ) tomou conta dos noticiários da região. A jovem de Sorocaba havia se mudado para a cidade carioca com o namorado Altamiro Lopes dos Santos para ingressar no cursinho pré-vestibular enquanto Altamiro cursava medicina. Os dois viviam juntos há um ano e meio na baixada fluminense por conta dos estudos. Segundo amigos próximos não demonstravam comportamento agressivo e estavam juntos desde o ensino médio, um namoro que teve início em Sorocaba.
O crime ocorreu no dia 9 de abril, o carro de Altamiro estava estacionado em um posto de gasolina enquanto tentava reanimar a namorada, frentistas prestaram ajuda e acionaram a polícia. De acordo com os médicos que receberam Patrícia, a estudante já estaria sem vida há mais de 24 horas. O ocorrido é mais um caso de feminicídio no país, apesar da lei garantir que os responsáveis não saiam impunes os episódios ainda amedrontam muitas mulheres. Em 2015 entrou em vigor a alteração do artigo 1º da lei 8071/90, foi incluído no código penal uma nova modalidade de homicídio qualificado, o assassinato do gênero feminino devido a condição do sexo. A nova lei estabelece aumento de pena para os responsáveis da violência doméstica e familiar.
Considerado um crime hediondo no Brasil, o feminicídio significa a morte intencional do público feminino, sendo ele praticado por seus parceiros ou não. Em declaração Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres no Brasil, define os crimes dessa classificação como “assassinatos cruéis e marcados por impossibilidade de defesa da vítima, torturas, mutilações e degradações do corpo e da memória”. Segundo a Organização das Nações Unidas, a taxa de feminicídios no território brasileiro é a quinta maior no mundo, 4,8 para 100 mil mulheres sendo a maioria das vítimas negras e os responsáveis parceiros ou ex-parceiros que discriminam, maltratam e tiram a vida.
O ocorrido movimentou os veículos de comunicação, desde sua divulgação o caso foi acompanhado em detalhes pelo público. A exposição da vida pessoal da vítima foi pauta durante todo o mês de abril. Sua convivência com familiares, amigos e pessoas próximas renderam conteúdo para ser transmitido nos veículos da região, em especial os sites de notícias e telejornais diários. Foram coletados depoimentos dos pais e do tio abordando assuntos como planos futuro da filha, estudos e personalidade de Patrícia alimentando a curiosidade de populares, assim consequentemente rendendo audiência para a mídia. Essa disponibilidade dos meios de comunicação em abordar questões de violência se da ao fato de que grande parte do público tem preferência para notícias desse tema.
O velório de Patrícia foi disponibilizado pela mídia sorocabana para todos que tivessem interesse em presenciar o momento do sepultamento pudessem ter acesso. O enterro de uma jovem que foi torturada e assassinada, pelo parceiro em quem depositava confiança, foi entregue aos veículos de comunicação como um espetáculo que deveria ser assistido pelo público. Enquanto todos "presenciavam" a jovem sendo sepultada a violência contra o público feminino continuava sendo um problema social. Poucas discussões abordaram o fenômeno que gira em torno do feminicídio, o momento certo para que esse tema se tornasse uma questão de interesse público chegou, e foi desperdiçado ignorando mais uma vez a falta de informação sobre os direitos e preconceitos que cercam o gênero feminino.
O episódio demonstrou que o papel social a que o jornalismo se submetia, informar e questionar os problemas sociais, passa a ter como objetivo liderar a audiência da mídia. Transformar crimes, sofrimento e perdas em consumo na indústria cultural tornou-se rotineiro nos maiores veículos de comunicação. Notícias e reportagens desse gênero fogem do seu dever em discutir falhas na segurança para dar lugar ao sensacionalismo. Assim deve-se policiar a conscientização do ato de violência contra a mulher e apresentar formas de combater, para que assim os noticiarios auxiliem na construção de um caráter social íntegro.

Texto: Évelyn Azevedo

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Jornalismo esportivo: informação ou entretenimento?

|0 comentários
O jornalismo esportivo passou por algumas mudanças nos últimos anos. O público que estava acostumado a acompanhar reportagens simples e objetivas, com os resultados e o desempenho das equipes esportivas, começou a notar o surgimento de um conteúdo mais dinâmico com características próximas ao entretenimento. Diante deste acontecimento, há controvérsias sobre os dois modos de transmitir a notícia, mas, será que os veículos de comunicação são capazes de equilibrar a informação e o entretenimento fazendo com que caminhem juntos?
Na maioria das vezes, o conteúdo esportivo é veiculado ao final dos telejornais, assim como no impresso, onde o caderno desta editoria se encontra nas últimas páginas. Essa escolha não é feita por acaso, este assunto costuma fechar as edições por ser considerado leve e aprazível. Isso não é diferente com os programas dedicados ao esporte, pois, o público que acompanha, espera que o assunto seja transmitido de uma maneira mais descontraída do que um programa policial, por exemplo.
O entretenimento no jornalismo esportivo ganhou destaque a partir de 2009, no programa Globo Esporte, com o então apresentador Tiago Leifert. Depois, o já existente Jogo Aberto, da Rede Bandeirantes, comandado pela apresentadora Renata Fan, também adotou a informalidade na hora de debater os temas de esporte. Apesar dos dois programas apresentarem características voltadas ao entretenimento, o modo de transmiti-los é diferente. No primeiro, a exibição dos resultados dos jogos é feita com um tom humorístico através da narração do repórter, além disso, o programa também aposta em produzir reportagens sobre temas ligados à vida pessoal dos jogadores e histórias de superação, fugindo um pouco da notícia. Já no segundo, no momento do debate sobre os clubes, os comentaristas esquecem a imparcialidade e expõem suas opiniões, deixando de ser profissional e vestindo a camisa de torcedor. Além disso, essas conversas acontecem ao vivo e, muitas vezes, acabam se transformando em discussões de baixo nível com gritarias e provocações. Uma situação comum neste programa é a realização de um ato fúnebre quando o time de um dos comentaristas ou da própria apresentadora é desclassificado de algum campeonato em questão. Essa “brincadeira” foge do padrão informativo do jornalismo e torna-se apenas entretenimento.
Nós, comunicadores, devemos ser cuidadosos na hora de expor uma ideia e de transmitir uma notícia. Mesmo que o esporte seja um tema para se tratar de modo leve, o propagador da mensagem é o jornalista e é seu papel informar com credibilidade sem que sua opinião interfira na compreensão do público. O Globo Esporte e o Jogo Aberto mudaram os seus formatos pela busca da audiência sem ter o cuidado com o modo de transmitir as informações ao público.
O equilíbrio entre a informação e o entretenimento pode ser encontrado quando o veículo de comunicação cumpre com a obrigação de informar, e, também, ao mesmo tempo, consegue entreter e agradar o público. Por isso, a informação e o entretenimento podem caminhar juntos desde que haja uma dosagem entre eles, pois, é possível informar de maneira descontraída sem perder o lado profissional do jornalista. Os veículos devem pensar nessa ideia e tentar remodelar o formato de seus programas.

Texto: Amanda Vieira da Costa